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Introdução

 
Atualmente, muitos agricultores e agricultoras de explorações familiares estão a passar por dificuldades ligadas às alterações climáticas. No entanto, as práticas de agricultura de conservação demonstram que é possível sobreviver face a esta situação difícil.

A agricultura de conservação, ou AC, é um conjunto de práticas simples que os agricultores podem adoptar para contrapor as consequências negativas das alterações climáticas e aprender a “cultivar com a natureza”. Isto requer por vezes um ajuste ou mudança de métodos de trabalho tradicionais para poder tirar máximo proveito das chuvas fracas ou irregulares, bem como outras fontes de água para as culturas.

Vários agricultores e agricultoras de explorações familiares pensam que apenas as pessoas instruídas das compreendem e praticam a AC. Mas esta convém a todos os agricultores e agricultoras, qualquer que seja o seu nível de instrução.

A AC assenta na rotação de culturas*, prática de perturbação mínima do solo, e a manutenção de uma cobertura do solo com manta e plantas vivas ao longo do ano. Para os agricultores com poucos rendimentos, o AC implica um investimento financeiro mínimo, e uma dependência menor de fertilizantes químicos, graças ao plantio de culturas abrigo e o alternar de culturas. Esta independência de gastos externos mostra porque é que a AC é prática para agricultores e agricultoras de explorações familiares, e sobretudo para os que não dispões quase de mão de obra.

Alguns dados essenciais

  • Muitos agricultores e agricultoras de explorações familiares de África subsaariana não têm recursos e utilizam métodos agrícolas nocivos à saúde e fertilidade do solo, o que traz rendimentos fracos.
  • Trabalhar o solo com charruas de aiveca ou escavar camalhões com enxadas forma a longo termo uma crosta* debaixo da superfície móvel do solo. Isto expõe o solo a erosão e agrava o escoamento das águas de chuva. As crostas tornam ter boas raízes difícil para as culturas.
  • Certas culturas podem ser classificadas como “culturas que tiram ao solo” e outras como “culturas que acrescentam ao solo”*, consoante tirarem ou acrescentarem nutrientes ao solo. Portanto, o agricultor deve ter cuidado com o tipo de cultura que escolher plantar.
  • As mentalidades, restrições financeiras, políticas complicadas, falta de conhecimentos e falta de serviços de divulgação sobre o assunto são também obstáculos à AC.

Impacto previsto das alterações climáticas sobre a adopção da agricultura de conservação

Em África subsaariana, o impacto do aquecimento global traduz-se muitas vezes por uma baixa da chuva, ou uma alteração da configuração da chuva. Muitas práticas ligada às AC têm como objectivo tornar as águas da chuva o mais acessíveis às culturas durante o seu cresci- mento. Os buracos de plantação, e linhas de lavoura permitem que essas águas se acumulem à volta das plantas, e que as suas raízes possam tirar proveito da humidade. Esta utilização mais eficaz da água disponível na AC significa que a adopção deste modelo de agricultura poderia se justificar face ao agravamento das alterações climáticas.

Dimensões de género na agricultura de conservação

  • Nos países da África subsaariana, muitas mulheres sofrem das crenças negativas agrícolas, sobretudo no que toca a posse de terras, escolha das culturas e acesso a produtos de venda.
  • Alguns dos utensílios aconselhados na AC são talvez pouco adaptados às mulheres. Por exemplo: o arado Chaka pesa entre 4 e 5 kg, e a lavoura requer a utilização de bois.
  • Muitas mulheres são semianalfabetas e têm dificuldades a por em prática as práticas ligadas à AC que pedem medidas e um calendário específico.

Informações falsas sobre a agricultura de conservação

  • Alguns agricultores de explorações familiares acreditam que a AC é exigente no que toca a mão de obra. Isto talvez seja verdade no início, mas as necessidades em mão de obra diminuem muitas vezes depois, pois os agricultores trabalham sempre com os mesmo buracos de plantação ou camalhões todos os anos. Os sistemas de AC nos quais herbicidas são utiliza- dos para eliminar ervas daninhas aligeiram a carga de trabalho, e sobretudo para as mulheres.
  • O abandono de resíduos de cultura* no campo é considerado como trabalho desleixa- do. No entanto, tem muitas vantagens como:
    • O facto de agirem como manta, e protegendo o solo contra os elementos
    • O facto de trazerem nutrientes ao solo quando se decompuserem
    • O facto de impedir a germinação e crescimento de ervas daninhas
  • Vários produtores pensam que os campos devem ser trabalhados para permitir que a água se infiltre no solo. Na verdade, deixam o solo coberto de uma manta ou de plantas vivas é muito mais eficaz que a lavoura no que toca a infiltração da água.
  • Muitos estão convencidos que a AC não deixa os agricultores descansar durante o ano. No entanto, quando bem planificado, o trabalho que a AC requer é minuciosamente dividido pelo ano. Isto evita que o agricultor tenha que fazer tudo de uma vez só quando as chuvas começarem.

Dados essenciais da agricultura de conservação

 

 1. Manutenção de uma manta vegetal

Depois das colheitas, é muito importante conservar os resíduos das culturas nos campos de modo a que cobram a maioria do solo durante a estação morta. Os resíduos de milho ou outras culturas, como soja ou amendoins, por exemplo devem ser espalhados por todo o solo.

Os agricultores devem também formar um para-fogo à volta do campo para evitar que fogos selvagens consigam destruir esses resíduos. Desta forma, os resíduos vão impedir que o sol bata diretamente no solo.

Em estações de chuvas, os resíduos de culturas vão conseguir amortecer o choque das gotas de chuva maiores. Por consequência, em vez de desfazer e escorrer a terra, as águas da chuva vão conseguir infiltrá-la. A retenção da humidade também será mais importante, o que vai permitir que o solo esteja húmido em períodos de seca. À medida que se decompõe, os resíduos vão-se misturar na terra, melhorando assim a textura e fertilidade do solo.

2. Rotação de culturas :

O alternar de culturas na mesma parcela de terra chama-se rotação de culturas, enquanto que a produção de uma só cultura numa terra todas as estações se chama monocultura*. A mono- cultura pode agravar a introdução de organismos nocivos e doenças no campo. A prática da monocultura com “culturas que tiram ao solo”* pode degradar o solo e fazer baixar os rendimentos.

Uma razão maior para praticar a rotação de culturas é o facto das “culturas que tiram ao solo! como o milho, o sorgo e o milet necessitam de mais elementos nutritivos que outras. Da mesma forma, a mandioca não traz tanto valor ao solo, mas permite-lhe desfazer-se, o que é bom para arejar o solo. Cultivar estes produtos na mesma terra ano após ano pode mesmo esgotar os nutrientes e provocar uma diminuição das colheitas.

Outras culturas tiram muito pouco ao solo, chegando mesmo a acrescentar-lhe. São as chamadas “culturas que acrescentam ao solo”. Leguminosas como o feijão frade, a ervilha do Congo, lablab e soja fazem parte dessa categoria. Para a rotação das culturas, aconselha-se que se alterne entre “culturas que dão ao sol” e “culturas que tiram ao solo”.

3. Culturas abrigo*

O solo ocupa um espaço muito grande na agricultura. Infelizmente, este é muitas vezes agredido pelo vento, sol e chuvas agressivas. Na agricultura de conservação, os agricultores de exploração familiar cultivam certos produtos que protegem o solo das agressões. Estas cultur- as cobrem o solo e impedem que este seja agredido pelas chuvas fortes ou perturbado pelo vento e sol. As leguminosas como o feijão frade, o lablab e as ervilhas d’Angola são culturas abrigo.

4. Trabalho mínimo do solo*

Geralmente, os agricultores de explorações familiares trabalham toda a superfície dos seus campos de modo a mantê-los limpos, e cavam por vezes camalhões.

No entanto, o trabalho mínimo do solo consiste em remexer a terra apenas no momento da plantação, deixando o resto do campo intacto. Isto protege o solo contra os elementos, sobretudo as chuvas mais fortes.

Os agricultores podem aplicar técnicas de trabalho mínimo do solo com a utilização de uma enxada ou equipamentos puxados por bois como os arados. Os cultivadores que utilizarem enxadas cavam buracos de plantação em linhas bem espacejadas, assegurando-se que furam a crosta. Os que recorrem à utilização de bois usam muito o arado Magoye, um dente sólido que pode ser encastrado num arado comum para traçar linhas profundas nos campos.
A fragmentação da crosta com um arado ou enxada permite que as águas infiltrem o solo com mais profundidade, em vez de escoar. As raízes das culturas arranjam também maneira de penetrar mais profundamente, e encontrar a humidade presente no solo, o que lhes vai permitir sobreviver durante as estações mais secas.

O trabalho mínimo do solo permite melhorar a estrutura e a fertilidade do solo durante vários anos. Isto geralmente também aumenta a humidade do solo.

5. Cobertura dos campos

Habitualmente, os agricultores de explorações familiares colhem as suas produções assim que estas amadurecem. Isto expõe o solo aos elementos, e também aos fogos selvagens. A destruição ou limpeza dos resíduos de cultura também os priva de uma grande fonte de elementos nutritivos para a cultura seguinte.

Com a AC, os produtores aplicam uma técnica chamada “cobertura do campo” para se preparar para a estação seguinte. Depois das colheitas, espalham de maneira sistemática os resíduos das culturas no campo de modo a cobrir o solo. Estes resíduos apodrecem depois no solo, trazendo-lhe assim os seus nutrientes. Para evitar que os fogos selvagens ou o gado destrua esta manta, os agricultores prepara um para-fogos tirando todas as ervas e plantas no redor do campo, e montando uma cerca viva (de árvores com espinhos)

6. Utilização de espécies agroflorestais
As espécies agro-florestais têm um papel muito particular na AC. Na Zâmbia e em outros países da África subsaariana, estas árvores e arbustos englobam o Faiherbia albida, o Sesba-nia sesban, o Tephrosia vogelii, o Gliricidia sepium, a ervilha de Angola, etc. As suas raízes penetram o solo muito profundamente fragmentando a crosta. Isto melhora o arejamento do solo e permite que uma maior quantidade de chuva se infiltre. No entanto a maior parte destas espécies aumentam a quantidade de azoto no solo.

Obstáculos face à adopção da agricultura de conservação

  • Raridade da manta para manter os solos cobertos
  • Concorrência entre as culturas e o gado pelos resíduos de cultura
  • Falta de acesso aos recursos necessários (utensílios para AC, sementes para cultura abrigo, herbicidas, etc.)
  • Mensagens de divulgação contraditórias da parte do governo e ONGs.
  • Falta de conhecimentos e compreensão da agro floresta ou outras práticas da AC.
  • Acesso e controlo limitado da terra da parte das mulheres, o que torna a sua partici- pação na AC difícil, ou a integração de “culturas femininas” na rotação cultural.

Pequeno agricultor de Chipata, Zâmbia, utilizando um arado Magoye puxado por bois num campo protegido contra fogos selvagens no qual os resíduos estão intactos

Soja “uma cultura que acrescenta ao solo” pronta para a colheita. As raízes abandonadas no solo contêm nódulos ricos em azoto. Isto irá alimentar a próxima “cultura que tira ao solo” que aí for produzida.

Resíduo de milho abandonados no campo após a colheita. Estes resíduos estão protegidos de fogos selvagens por um para-fogo. Eles protegem o solo contra raios quentes do solo em estações secas e decompõem-se para melhorar a fertilidade do solo*

Faidherbia albida com sete anos no centro de formação agrícola de Kalunga, em Chipata, Zâmbia. Plantados a 10métros uns dos outros, os ramos destas árvores cobrem o campo todo e perdem as suas folhas que formam um húmus rico em azoto. Durante a estação agrícola, as árvores não têm folhas e não cobrem as culturas de sombra.

Feijão frade como cultura-abrigo. O solo está completamente abrigado do impacto das gotas de chuva e do vento. Esta cultura também traaz azoto ao solo.

Definições chave

 
Agro floresta : Prática consistindo na incorporação de árvores e arbustos na agricultura para a melhorar. As espécies agro-florestais mais utilizadas são: o Faidherbia albida, o Sesbania sesban, o Tephrosia vogelii, o Grevillia robusta e o Gliricidia sepium.

Cultura abrigo : cultura produzida para proteger o solo contra elementos na medida em que cobre o solo nu. O feijão frade, ervilha de Angola e lablab são algumas das culturas abrigo mais comuns.

Resíduos de cultura ou restos : resíduos que ficam depois das colheitas, por exemplo: forra- gem de milho ou haste dos amendoins.

Rotação das culturas: alternância sistemática das culturas num campo. Por norma, uma que traga nutrientes ao solo, por exemplo: amendoins, é seguida de uma cultura como o milho que absorve muitos dos nutrientes do solo.

Pousio: parcela de terras que se mantêm inutilizada durante um tempo para permitir que volte a ser fértil.

« Culturas que trazem ao solo » : culturas que acrescentem nutrientes como o azoto ao solo. A maioria delas é leguminosas com nódulos nas raízes que contenham azoto. Quando as colhemos cortando a parte superior em vez de as desenterrar, os nódulos permanecem no solo enriquecendo-o.

Crosta : Camada compacta e dura do solo que se forma debaixo da superfície após anos a ser revirada com enxadas manuais ou arados. Isto causa escoamento das chuvas e impede que as raízes penetrem profundamente no solo.

Pousio melhorado : campos deixados em pousio onde se cultivam espécies agro-florestais de utilização múltipla e melhoradora que encurte assim o período de pousio, para que a terra possa usada mais rapidamente. Estas espécies também têm vantagens económicas durante esse tempo, por exemplo: fruta e lenha para queima.

Posse de terra : neste contexto, as regras que gerem o acesso à propriedade da terra pelos agricultores de explorações familiares. Em certos países da África subsaariana, isto desfa- vorece sobretudo mulheres casadas que são muitas consideradas parceiras secundárias no casamento. Mesmo que não sejam casadas, são consideradas cidadãos de segundo grau em certas comunidades patriarcais

Trabalho mínimo do solo: perturbação reduzida do solo durante a lavoura. O trabalho mínimo do solo incentiva os agricultores a cavar o solo apenas no momento de semear. O resto da terra mantém-se intacto e relativamente protegido contra os elementos.

Monocultura : cultivar apenas um produto num campo específico todos os anos. Esta prática traz muitas vezes uma diminuição do rendimento do solo e favorece a proliferação de organ- ismos nocivos e doenças.

Estado físico: entende-se por isso, a condição do solo. Um solo em bom estado é móvel e friável. Um solo friável é um solo que se desfaz facilmente em pó. Um solo cansado pode ser frágil e impedir que as raízes penetrem facilmente.

« Culturas que tiram ao solo» : culturas que crescem aspirando os nutriente que se encon- tram no solo ou em recursos externos.

Acknowledgements

Agradecimentos
Redação : Filius Chalo Jere, realizador de emissões agrícola, Breeze FM, Chipata, Zambie
Revisão : Neil Rowe Miller, agente técnico em agricultura de conservação, Comité central mennonita e Godfrey Magoma, técnico especializado em agricultura de conservação, Tanzânia, Canadian Foodgrains Bank, Programa de reforço da agricultura no este de África.

Todas as fotografias foram tiradas pos Filius Chalo Jere, da Breeze FM, Chipata, Zâmbia, à exceção da primei- ra que é de Oscarsson, do Programa de gestão das terras e da agricultura de conservação do ministério de Agricultura,Sida/ORGUT-Zambie.

Projeto realizado com o apoio financeiro do Governo do Canada Projeto realizado com o apoio financeiro do governo do Canada, concedido pelos Negócios Mundi- ais Canada (AMC)

Translated with funding from USAID.
USAID Washington Development objective: to support the New Alliance ICT Extension Challenge Fund through the implementation of affordable, scalable, and diverse ICT extension services.
AID-OAA-A-16-00003