{"id":39245,"date":"2022-10-13T17:12:00","date_gmt":"2022-10-13T14:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/scripts.farmradio.fm\/?post_type=radio-script&#038;p=39245"},"modified":"2023-08-28T21:17:24","modified_gmt":"2023-08-28T18:17:24","slug":"violencia-domestica-consequencias-e-causas","status":"publish","type":"radio-script","link":"https:\/\/scripts.farmradio.fm\/pt-pt\/guilao-de-radio\/violencia-domestica-consequencias-e-causas\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia dom\u00e9stica: Consequ\u00eancias e Causas"},"content":{"rendered":"<p><strong>LOCUTOR.A: <\/strong>\tOl\u00e1 caros e caras ouvintes, bem-vindos ao nosso programa.<\/p>\n<p>Hoje, com as nossas convidadas e convidado, falaremos da viol\u00eancia dom\u00e9stica, uma forma de viol\u00eancia baseada no g\u00e9nero, tamb\u00e9m conhecida como VBG. Eles ir\u00e3o falar sobre as causas e consequ\u00eancias da viol\u00eancia dom\u00e9stica, bem como sobre as medidas tomadas por organiza\u00e7\u00f5es e indiv\u00edduos para a combater. V\u00e3o tamb\u00e9m discutir as ac\u00e7\u00f5es tomadas por associa\u00e7\u00f5es e ONGs para ultrapassar as barreiras \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de leis contra este tipo de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Falaremos com tr\u00eas pessoas de recurso. A primeira, Aminata Traor\u00e9, \u00e9 uma sobrevivente da viol\u00eancia dom\u00e9stica e professora de uma escola privada em Djoro, na regi\u00e3o de Segou. Ela ir\u00e1 explicar como sobreviveu a esta viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Depois falaremos com a Sra. Mariam Traor\u00e9, advogada e especialista em viol\u00eancia dom\u00e9stica. Ela partilhar\u00e1 a sua experi\u00eancia e os m\u00e9todos utilizados para ajudar as mulheres sobreviventes. Finalmente, daremos as boas-vindas ao Sr. S\u00e9gn\u00e9 Sangar\u00e9. Ele \u00e9 psic\u00f3logo, conselheiro de sa\u00fade e membro da associa\u00e7\u00e3o de psic\u00f3logos do Mali. Ele falar\u00e1 sobre o mesmo tema mas do ponto de vista do impacto psicol\u00f3gico da viol\u00eancia dom\u00e9stica nas mulheres e crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>LOCUTOR.A:<\/strong>\tBem-vinda, Sra. Aminata Traor\u00e9!<br \/>\n<strong>AMINATA TRAORE: <\/strong>\tObrigada por me receberem.<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A:<\/strong>\tComo sobrevivente da viol\u00eancia dom\u00e9stica, conte-nos como aconteceu para si.<br \/>\nAMINATA TRAORE:\tConheci o meu ex-marido h\u00e1 quase vinte anos. Naquela altura, \u00e9ramos estudantes. Casei com ele sem o consentimento dos meus pais, que lhe achavam muito mal-educado. Desde o in\u00edcio, ele ficava com ci\u00fames quando eu falava com outros homens, incluindo os meus amigos. Ele n\u00e3o falava comigo durante v\u00e1rios dias. A situa\u00e7\u00e3o piorou quando nos cas\u00e1mos. Para mostrar o seu descontentamento, ele chicoteava-me com o cinto. Eu n\u00e3o conseguia levantar a minha voz quando ele falava, sen\u00e3o ele batia-me. Foi mais complicado ainda quando ele perdeu o seu emprego. Tive de lhe aturar porque tinha dado \u00e0 luz um rapaz que na altura tinha cinco anos. Mas n\u00e3o podia falar sobre isso com a minha fam\u00edlia, pois eles j\u00e1 se opunham ao nosso casamento.<\/p>\n<p>Um dia ele bateu-me com uma pequena cadeira de madeira que t\u00ednhamos em casa. Eu fiquei com sangue por toda a parte e feridas na minha cabe\u00e7a. Mas apesar dos meus ferimentos, ele n\u00e3o me deixou dormir sem satisfazer o seu desejo sexual. Senti que ver-me a chorar lhe excitava. Tive dois abortos espont\u00e2neos devido a este abuso. Esperava que ele mudasse, mas a situa\u00e7\u00e3o estava a piorar.<\/p>\n<p>Alguns anos mais tarde, fiquei gr\u00e1vida da minha filha. Mas a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o melhorou, pelo contr\u00e1rio. Durante anos, sofri todo o tipo de viol\u00eancia dom\u00e9stica com o meu marido. Ele n\u00e3o me apoiou financeiramente. Com o meu sal\u00e1rio como professora, fui obrigada a pagar medicamentos e comida para os meus filhos e para ele. Em suma, desempenhei o papel que a lei do casamento no Mali lhe confere. Ela estipula que o homem deve alimentar e proteger a sua esposa.<\/p>\n<p>Durante este tempo, ele n\u00e3o tentou trabalhar. E quando n\u00e3o conseguia suportar o fardo, ele abusava fisicamente de mim e insultava-me. O abuso sexual, verbal e f\u00edsico que sofri danificou a minha sa\u00fade mental e deixou-me num estado de stress, depress\u00e3o, raiva, e \u00f3dio para com os homens em geral.<\/p>\n<p><strong>LOCUTOR.A:<\/strong>\tPorque voc\u00ea suportou este sofrimento por tanto tempo?<br \/>\n<strong>AMINATA TRAORE:\t<\/strong>Em parte, culpava-me por causa dos avisos da minha fam\u00edlia sobre o meu ex-marido. Por isso, n\u00e3o pude queixar aos meus pais. Tamb\u00e9m, no Mali, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para uma mulher deixar um marido violento, especialmente com o peso da cultura que recomenda que as mulheres sejam pacientes e resistentes.<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A: <\/strong>\tComo \u00e9 que os seus filhos viveram este per\u00edodo?<br \/>\n<strong>AMINATA TRAORE: <\/strong>\tAntes do div\u00f3rcio, o meu filho de 16 anos sentia-se respons\u00e1vel por mim. Ele colocava-se entre o seu pai e eu, tentando impedi-lo de me maltratar. Isto assustava-me porque o meu filho era capaz de agredir o seu pai para me proteger, ainda que isso seja estritamente proibido na nossa sociedade. Com l\u00e1grimas nos olhos, eu continuava a dizer-lhe para deixar o seu pai bater-me. A minha filha chorava e ia para o quarto. Na escola, o meu filho atacava os seus amigos. Ele ficava sempre zangado at\u00e9 com as coisas mais pequenas, e a minha filha andava com medo constante.<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A:<\/strong>\tComo voc\u00ea conseguiu ter o div\u00f3rcio? <\/p>\n<p><strong>AMINATA TRAORE: <\/strong>\tComo costumamos dizer, basta. Eventualmente, ele come\u00e7ou a dormir com as minhas empregadas e as filhas dos nossos vizinhos. Quando lhe pedi para parar, ele deu-me chapadas e bateu-me com um pau at\u00e9 me partir a m\u00e3o. Naquele momento, peguei em todos os meus pertences e fui para casa dos meus pais. Foi a\u00ed que decidi terminar com ele, porque lhe odiava. Falei com amigos, que me aconselharam a contactar associa\u00e7\u00f5es de defesa das mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia para apresentar uma queixa e pedir div\u00f3rcio. N\u00e3o foi f\u00e1cil porque eu n\u00e3o conhecia os procedimentos a seguir em tribunal. Mas com a ajuda de ONGs como WiLDAF e dos meus amigos, consegui o div\u00f3rcio. Agora vivo na casa dos meus pais com os meus filhos, \u00e0 espera de encontrar um lugar para mim.<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A:<\/strong> \tQue conselhos tem para as mulheres?<br \/>\n<strong>AMINATA TRAORE:<\/strong>\tGostaria de dizer \u00e0s mulheres que todas as pessoas s\u00e3o iguais perante a lei e que ningu\u00e9m tem o direito de prejudicar os outros. Uma pessoa casa para ser feliz, n\u00e3o para ser escrava do seu c\u00f4njuge. Quando uma mulher perde a sua vida, os seus filhos e filhas s\u00e3o os primeiros a sofrer. \u00c9 preciso tomar uma decis\u00e3o antes que seja tarde demais. Tive a sorte de escapar. Mas quantas mulheres j\u00e1 morreram? Tome uma decis\u00e3o rapidamente, ou voc\u00ea pode ser a pr\u00f3xima v\u00edtima.<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A:<\/strong> \tObrigado, Aminata Traor\u00e9. Vamos agora ouvir a Sra. Mariam Traor\u00e9, advogada e especialista em viol\u00eancia dom\u00e9stica na WiLDAF. A WiLDAF Mali \u00e9 uma rede de cerca de vinte associa\u00e7\u00f5es e cinquenta membros individuais. O seu objectivo \u00e9 proteger e promover os direitos das mulheres e das crian\u00e7as.<br \/>\nObrigado por aceitar o nosso convite. Ent\u00e3o Mariam, o que \u00e9 a viol\u00eancia dom\u00e9stica?<br \/>\n<strong>MARIAM TRAORE<\/strong>:\tA viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 um conjunto de comportamentos, ac\u00e7\u00f5es e atitudes de um parceiro, ou parceira, ou ex-parceiro que tem como objectivo controlar e dominar a outra pessoa. Esta viol\u00eancia pode assumir a forma de amea\u00e7as ou coer\u00e7\u00e3o verbal, f\u00edsica, sexual ou econ\u00f3mica do outro parceiro ou parceira<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A: <\/strong>\tQual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o deste tipo de viol\u00eancia no Mali?<br \/>\n<strong>MARIAM TRAORE: <\/strong>\tNo Mali, assim como em toda a parte, a viol\u00eancia dom\u00e9stica continua a ser um motivo de preocupa\u00e7\u00e3o. Vivemos numa sociedade muito patriarcal. O marido \u00e9 visto como o chefe da fam\u00edlia. O fardo do agregado familiar recai principalmente sobre ele. Quanto \u00e0 esposa, espera-se que obede\u00e7a ao seu marido. Este desequil\u00edbrio de poder leva frequentemente \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica. <\/p>\n<p>Por exemplo, not\u00e1mos que algumas mulheres t\u00eam dificuldade em seguir os seus estudos ou carreiras profissionais ap\u00f3s o casamento, devido \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o dos seus maridos. De acordo com as estat\u00edsticas, uma em cada duas mulheres com idades compreendidas entre os 15 e os 49 anos no Mali j\u00e1 sofreu viol\u00eancia f\u00edsica, emocional ou sexual pelo menos uma vez na sua vida. A mesma propor\u00e7\u00e3o de mulheres tamb\u00e9m enfrenta viol\u00eancia emocional ou f\u00edsica durante uma separa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nInfelizmente, o contexto social obriga frequentemente a mulher a suportar e at\u00e9 a perdoar o seu parceiro por esta viol\u00eancia. Aquelas que deixam as suas casas s\u00e3o estigmatizadas pela sociedade. Mas a viol\u00eancia, o sofrimento imposto ao outro c\u00f4njuge, destr\u00f3i a harmonia da vida conjugal e sela o destino dos filhos e filhas do casal.<\/p>\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos no Mali denunciam a viol\u00eancia dom\u00e9stica em todas as suas formas. Mas apesar dos repetidos apelos \u00e0 reforma, poucos progressos est\u00e3o a ser feitos na abordagem deste tipo de viol\u00eancia de uma forma sistem\u00e1tica e eficaz.<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A:<\/strong>\tQuais s\u00e3o as causas da viol\u00eancia dom\u00e9stica no Mali?<br \/>\n<strong>MARIAM TRAORE:<\/strong> \tA viol\u00eancia dom\u00e9stica tem muitas causas. H\u00e1 o factor educativo. As crian\u00e7as imitam este comportamento quando s\u00e3o educadas num ambiente onde todos os problemas s\u00e3o resolvidos na base da for\u00e7a, quer na escola quer na fam\u00edlia. <\/p>\n<p>Na sociedade maliana, h\u00e1 muitos estere\u00f3tipos ligados \u00e0 esposa que n\u00e3o s\u00e3o v\u00e1lidos para a m\u00e3e, a irm\u00e3, e a filha. Por exemplo, eu amo a minha m\u00e3e, amo a minha irm\u00e3, amo a minha filha, mas n\u00e3o devo confiar na minha mulher.<\/p>\n<p>Ultimamente, a viol\u00eancia ocorre quando h\u00e1 preconceitos contra as mulheres. Na sociedade maliana, o homem \u00e9 tradicionalmente considerado o mais importante porque \u00e9 ele quem casa com a mulher, alimenta a fam\u00edlia, e cuida delas. Mesmo na partilha da propriedade familiar, de acordo com os nossos costumes, o homem recebe o dobro da parte da mulher. Assim, se os homens pensam que as mulheres s\u00e3o inferiores, ou que as mulheres n\u00e3o t\u00eam a mesma autoridade que os homens, as mulheres ser\u00e3o tratadas com viol\u00eancia. Basicamente, a viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 o resultado de desigualdades sociais.<\/p>\n<p><strong>LOCUTOR.A: <\/strong>\tO que \u00e9 que a sua organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 a fazer para ajudar as mulheres sobreviventes da viol\u00eancia?<br \/>\n<strong>MARIAM TRAORE:<\/strong>\tV\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es de direitos das mulheres prestam assist\u00eancia jur\u00eddica e social \u00e0s mulheres sobreviventes da viol\u00eancia dom\u00e9stica. N\u00f3s temos abrigos pr\u00f3prios para mulheres e crian\u00e7as em perigo. Ao mesmo tempo, existem workshops jur\u00eddicos para ajudar as mulheres a apresentar uma queixa. As sobreviventes podem tamb\u00e9m beneficiar da assist\u00eancia de psic\u00f3logos, que as ouvem e as tranquilizam. Depois organizamos workshops de forma\u00e7\u00e3o, sensibiliza\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o sobre os direitos das mulheres e sobre as leis que protegem as mulheres contra a viol\u00eancia dom\u00e9stica.<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A: <\/strong>\tO que torna dif\u00edcil a aplica\u00e7\u00e3o de leis contra a viol\u00eancia dom\u00e9stica no Mali?<br \/>\n<strong>MARIAM TRAORE:<\/strong>\tMuitos perpetradores de viol\u00eancia dom\u00e9stica acreditam que a lei n\u00e3o deve interferir nas suas vidas de casados. As sobreviventes da viol\u00eancia dom\u00e9stica sentem-se culpadas porque est\u00e3o convencidas de que fizeram algo de errado. Assim, aquelas que sofrem viol\u00eancia diariamente escondem-na, minimizam-na, ou pensam que \u00e9 tempor\u00e1ria porque acreditam que o perpetrador ir\u00e1 mudar mais cedo ou mais tarde. <\/p>\n<p>As sobreviventes da viol\u00eancia dom\u00e9stica querem que a viol\u00eancia pare, mas muitas vezes n\u00e3o querem tomar medidas legais contra o perpetrador. Al\u00e9m disso, a press\u00e3o social das crian\u00e7as ou de ambas as fam\u00edlias pode impedir a v\u00edtima de tomar medidas legais contra o c\u00f4njuge que lhe abandona, insulta ou bate. As mulheres do Mali s\u00e3o muito apegadas \u00e0s suas vidas de casadas e ao futuro dos seus filhos e podem ficar convencidas de que t\u00eam de aturar os excessos dos seus parceiros durante muito tempo antes de decidirem terminar os seus anos de vida de casadas.<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A: <\/strong>\tO que ser\u00e1 necess\u00e1rio para fazer cumprir as leis contra a viol\u00eancia dom\u00e9stica?<br \/>\n<strong>MARIAM TRAORE: <\/strong>\tA nossa constitui\u00e7\u00e3o consagra a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Algumas formas de viol\u00eancia f\u00edsica e sexual s\u00e3o pun\u00edveis por lei. H\u00e1 necessidade de fazer cumprir a lei, aumentando as actividades que sensibilizam a consequ\u00eancia da viol\u00eancia dom\u00e9stica. Devemos tamb\u00e9m criar um quadro nacional para a protec\u00e7\u00e3o das sobreviventes e punir severamente a viol\u00eancia dom\u00e9stica. <\/p>\n<p>Por exemplo, um melhor acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o para raparigas, mais oportunidades de gera\u00e7\u00e3o de rendimentos para as mulheres, e uma melhor representa\u00e7\u00e3o das mulheres em todas as \u00e1reas dos sectores p\u00fablico e privado, incluindo em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, s\u00f3 podem ser ben\u00e9ficas. Qualquer coisa que os homens possam fazer, as mulheres tamb\u00e9m podem fazer no local de trabalho. Mulheres e homens devem trabalhar em conjunto para o desenvolvimento da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>LOCUTOR.A: <\/strong>\tMuito obrigado, Mariam. Agora recorremos ao S\u00e9gn\u00e9 Sangar\u00e9, psic\u00f3logo, conselheira de sa\u00fade, e membro da Associa\u00e7\u00e3o de Psic\u00f3logos do Mali.<\/p>\n<p>Sr. Sangar\u00e9, o que leva alguns homens a serem violentos para com as suas parceiras?<br \/>\n<strong>SANGARE SEGNE:<\/strong> \tAlguns homens t\u00eam naturalmente um temperamento quente e s\u00e3o muito mais propensos a serem violentos. Na tradi\u00e7\u00e3o maliana, um homem pode pensar que \u00e9 &#8220;normal&#8221; dominar a sua esposa. Se ela n\u00e3o for d\u00f3cil, ele volta a p\u00f4-la na linha. Quando estes homens batem nas suas esposas, o objectivo \u00e9 faz\u00ea-la submeter-se. Se a mulher se recusar, pode ser complicado, e at\u00e9 fatal para ela. Mas as causas da viol\u00eancia dom\u00e9stica s\u00e3o diversas. Podem provir da nossa educa\u00e7\u00e3o, dos preconceitos da comunidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, e das vantagens dadas aos homens na nossa sociedade.<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A: <\/strong>\tPorque \u00e9 que as mulheres maltratadas se recusam a deixar os seus parceiros?<br \/>\n<strong>SANGARE SEGNE:<\/strong>\tH\u00e1 v\u00e1rias raz\u00f5es pelas quais as mulheres sobreviventes se recusam a partir. Primeiro, a sociedade acredita que as mulheres devem sofrer para que os seus filhos tenham sucesso nas suas vidas. H\u00e1 v\u00e1rias outras raz\u00f5es. As sobreviventes sentem-se frequentemente envergonhadas, culpadas, e impotentes. Elas temem que os outros as julguem e n\u00e3o acreditem na sua hist\u00f3ria. Pensam que o homem pode mudar, porque prometeu mudar. <\/p>\n<p>Elas t\u00eam medo das suas amea\u00e7as e temem pelo futuro dos seus filhos. Temem as consequ\u00eancias de lhe deixar. T\u00eam medo de perder o que passaram tantos anos a construir. Acreditam que n\u00e3o conseguiriam seguir sozinhas. Sentem-se respons\u00e1veis por \u201cdestruir\u201d a fam\u00edlia. Ignoram as leis que as protegem ou acreditam que as leis n\u00e3o lhes podem proteger. Elas amam os seus maridos, mas n\u00e3o o seu comportamento abusivo.<\/p>\n<p>Como resultado, ficam presas, n\u00e3o s\u00f3 devido \u00e0s suas cren\u00e7as mas tamb\u00e9m devido \u00e0s suas atitudes.<\/p>\n<p><strong>LOCUTOR.A:<\/strong>\tQuais s\u00e3o as consequ\u00eancias para as mulheres sobreviventes da viol\u00eancia dom\u00e9stica e para os seus filhos?<br \/>\n<strong>SANGARE SEGNE:<\/strong> \tA viol\u00eancia dom\u00e9stica pode enfraquecer a capacidade de algumas mulheres para acreditar em si pr\u00f3prias. Estas mulheres j\u00e1 n\u00e3o conseguem fazer nada sozinhas, e devem ser guiadas a todo o momento. Elas sentem-se humilhadas e confusas. Sofrem de falta de sono e sofrem muito socialmente devido \u00e0 press\u00e3o do seu marido.<\/p>\n<p>As coisas s\u00e3o ainda mais complicadas para as crian\u00e7as. Vivem num contexto baseado na domina\u00e7\u00e3o e na agress\u00e3o. S\u00e3o confrontadas com uma escolha entre os seus pais e vivem em ang\u00fastia. Al\u00e9m disso, a viol\u00eancia raramente \u00e9 discutida no seio da fam\u00edlia. O sil\u00eancio e o tabu que geralmente rodeiam estas situa\u00e7\u00f5es significam que as crian\u00e7as n\u00e3o recebem explica\u00e7\u00f5es acerca dos actos que observam e sofrem. Assim, n\u00e3o t\u00eam a oportunidade de expressar os seus sentimentos, ou de serem tranquilizadas. Deixadas em estado de stress e choque, estas crian\u00e7as podem desenvolver problemas emocionais e comportamentais que ir\u00e3o afectar o seu desenvolvimento.<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A: <\/strong>\tQual \u00e9 a faixa et\u00e1ria das sobreviventes que procuram os vossos servi\u00e7os?<br \/>\n<strong>SANGARE SEGNE: <\/strong>\tH\u00e1 mulheres de todas as idades. Mas s\u00e3o geralmente as mulheres que est\u00e3o numa rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 mais de cinco anos. A mulher mais velha que j\u00e1 servi tinha 63 anos de idade e estava numa rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 45 anos. Ela foi v\u00edtima de abuso f\u00edsico.<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A: <\/strong>\tO que poderia dizer para concluir esta entrevista?<br \/>\nSANGARE SEGNE:\tEu diria \u00e0s mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica que estamos \u00e0 vossa disposi\u00e7\u00e3o dia e noite. Embora seja dif\u00edcil fazer cumprir as leis no Mali, embora a sociedade em que vivemos n\u00e3o vos seja muito favor\u00e1vel, ainda h\u00e1 esperan\u00e7a por causa das associa\u00e7\u00f5es e ONGs. Elas ouvem sempre e fazem tudo o que podem pelas mulheres e crian\u00e7as.<br \/>\n<strong>LOCUTOR.A: <\/strong>\tObrigado pelas suas explica\u00e7\u00f5es, Sr. Sangar\u00e9. Eu tamb\u00e9m quero agradecer a Aminata Traor\u00e9 e Mariam Traor\u00e9 pelas suas contribui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia contra as mulheres inclui a viol\u00eancia f\u00edsica, mas tamb\u00e9m a viol\u00eancia econ\u00f3mica, sexual e psicol\u00f3gica. Ela afecta todas as sociedades, desenvolvidas ou em desenvolvimento, e todas as classes sociais. As suas consequ\u00eancias s\u00e3o devastadoras para a sociedade como um todo.<\/p>\n<p>Cheg\u00e1mos ao fim do programa de hoje. Obrigado ao nosso convidado e convidadas e a todo o mundo que est\u00e1 a ouvir. Em breve estaremos de volta para outro programa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LOCUTOR.A: Ol\u00e1 caros e caras ouvintes, bem-vindos ao nosso programa. Hoje, com as nossas convidadas e convidado, falaremos da viol\u00eancia dom\u00e9stica, uma forma de viol\u00eancia baseada no g\u00e9nero, tamb\u00e9m conhecida como VBG. 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