Como é que os agricultores se podem adaptar às alterações climáticas?

Meio-ambiente e alterações climáticas

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Como é que o aquecimento global afecta as condições meteorológicas?

Já ouviu falar do aquecimento global? A terra está a aquecer porque as atividades humanas, como queimar carvão, petróleo ou gás para energia aumentam o nível dos ‘gazes de estufa’ na atmosfera da terra. Estes gases, que englobam o carbono, o metano e o óxido nitroso, impedem que o calor do sol se reflita no espaço. Esse calor fica preso na atmosfera da terra, o que aumenta a temperatura da sua superfície. Por causa do aumento dos gazes de estufa, as temperaturas no mundo vão aumentar entre 1,5 e 4 graus ao longo do próximo século. Este aumento não parece muito grave, mas terá muitas consequências para os agricultores.

À medida que a temperatura aumenta, as condições meteorológicas serão afectadas de formas diferentes na terra. Algumas regiões vão se tornar mais secas, mais especificamente as pradarias em África onde as chuvas vão diminuir cada vez mais, e tornar-se ano após ano mais imprevisíveis. O aumento da temperatura vai tornar também mais rápida a evaporação da humidade da superfície da terra. À medida que o ar e o solo se tornam mais áridos, vai ser mais difícil cultivar algumas culturas, como o milho.

Noutras regiões, particularmente as regiões costeiras, as temperaturas mais elevadas vão chegar com mais chuva. As regiões costeiras e pequenas ilhas vão ser afectadas pela subida dos níveis do mar e tempestades mais violentas. Por exemplo, se o nível do mar aumentar de um metro, 17% do território do Bangladesh ficará submerso. As terras mais baixas da China, sudeste da Ásia e a África ocidental e central ficarão também submersos e afectados.

Como é que o aquecimento global afecta a agricultura local?

Já falámos da dificuldade de cultivo de uma cultura importante como o milho por causa do aquecimento global. Outras colheitas serão afectadas, particularmente nas regiões tropicais e subtropicais. As colheitas serão piores porque:

1) Uma grande variedade de arroz não vão germinar se as temperaturas se tornarem demasiado elevadas.
2) Vai haver menos água para as culturas se as chuvas se tornarem mais escassas e a evaporação aumentar.

A produção de alimentação também vai ser afectada por

  • Um aumento da frequência de condições atmosféricas extremas como tempestades, inundações e secas.
  • Estações mais longas para cultivo nas regiões frias.
  • Mudanças importantes na distribuição da quantidade de peixes e frutos de mar.
  • Um aumento de doenças e parasitas.

Aqui estão alguns exemplos de consequências possíveis do aquecimento global em várias partes do mundo:

Em África:

  • O aumento do número de secas pode afectar seriamente a quantidade de alimentação disponível
  • Os rendimentos de milet podem descer de 63 a 79%.
  • Os rendimentos da pesca de peixes de água doce podem aumentar, mas a mistura de espécies pode mudar. Algumas espécies de peixes vão sobreviver graças às temperaturas mais elevadas, tendo agora mais facilidade em alimentar-se e reproduzir-se. No entanto, outras não se vão conseguir adaptar à mudança e a sua quantidade poderá diminuir.
  • As infestações de moscas tsé-tsé podem se propagar até as regiões mais meridionais como Zimbabwe ou Moçambique, para o oeste de Angola e nordeste da Tanzânia. O número de infestações pode no entanto diminuir nas regiões onde existe atualmente.

No Médio-Oriente e regiões mais áridas da Ásia:

  • A produção de trigo em algumas regiões pode diminuir por causa da elevação da temperatura.
  • Grandes problemas de penúria de água prováveis.

Na América latina:

  • Podemos espera uma diminuição do rendimento de várias culturas importantes no México, América Central, Brasil, Argentina e Uruguai.
  • A produção de gado pode diminuir por causa das penúrias de água nas pradarias temperadas.
  • Incidências nas condições meteorológicas extremas como inundações e furacões que podem ser nocivas para a produção de gado e culturas.

Em China e nas regiões mais frias da Ásia do norte:

  • Diminuições prováveis na produção de arroz, milho e trigo.
  • Os rendimentos poderão aumentar no norte da Sibéria mas diminuir no sul.
  • À medida que a temperatura da água aumentar, as operações de aquacultura podem ser orientada para as espécies de água quente, as doenças terão de ser geridas com cuidado.

Na Ásia tropical:

  • Esperamos que as colheitas de arroz, trigo e sorgo diminuam.
  • A produção das culturas vai diminuir de 12 % na Índia, com as regiões costeiras sendo as mais afectadas. Prevemos que outras consigam beneficiar do aquecimento.
  • Noutras regiões, por exemplo o Paquistão, um aumento do escoamento de bacias fluviais pode causar inundações e saturações do sol pela água, o que aumentará o nível de sal no solo.

O que podem fazer os agricultores?

Os agricultores que o ouvem já utilizam provavelmente técnicas eficazes para atenuar os estragos das condições meteorológicas. Podem incentivá-los a prevenir esses danos e a adaptar e melhorar as condições que já meteram em prática. Por exemplo, a deterioração do solo e da água irá provavelmente aumentar com o aquecimento global, portanto técnicas para conservar o solo e a água serão particularmente úteis.

Quando prepara a sua emissão de rádio, fale com especialista locais (estações de pesquisa, serviços nacionais de meteorologia, gabinete nacional da FAO) para saber de que maneira a sua região vai ser afectada. Pode de seguida elaborar estratégias úteis para os seus ouvintes, e explicar-lhes essas estratégias. Pode também referenciar textos anteriormente publicados pela Rede da Radios Rurales dos Países em Desenvolvimento. Anotámos os textos que podem ser mais úteis. (Se não os tiver, dirija-se à nossa carta de informação para obter mais informações).

1. Se a sua região for vulnerável a tempestades, furacões, tufões, e inundações:

  • Crie uma cobertura florestal para proteger as regiões costeiras (ver o exemplo da plantação de mangue abaixo).
  • Plantar culturas menos vulneráveis aos ventos mais violentos. Uma escolha inteligente: as plantas raízes (Ver o texto 58.11, Cultivar e alimentar-se se inhames nutritivos).
  • Evitar a cultura itinerante depois de queimas que limpam a terra.
  • Evitar plantar culturas temporárias em terrenos abruptos (Ver o texto 44.9, Como recuperar o solo em terrenos inclinados).
  • Criar barreiras vegetais (Ver o texto 43.3, Para prevenir a erosão, plante vetiver).
  • Manter sempre o solo coberto de vegetação ou mulch. (Ver os textos 34.1, Conseguir
  • Mais com palha, 50.4, Agricultores do Nicarágua desafiam el niño; 58.5, Cultive os seu próprio adubo – plante culturas fertilizantes com o milho).
  • Utilizar o material de semeamento recomendado para criar corta-ventos (Ver o texto 44.2, Os corta-ventos protegem as culturas e os solos).

Proteger as regiões costeiras com a plantação de mangue

A costa do Vietname é percorrida por tufões 8 a 10 vezes por ano. Muitas vezes destroem as barragens marítimas e destroem as quintas de cultura aquática. Para criar uma barreira para proteger as barragens e o litoral, a Cruz Vermelha do Vietname criou uma plantação de mangues de 2000 hectares. As plantações de mangue são também usadas para colher e vender produtos importantes como camarão, caranguejo, e algas cultivadas. Pouco tempo depois de terminada, a plantação de mangue foi atacada pelo pior tufão da última década, e conseguiu ser barreira para proteger as barragens e sistemas de piscinas de aquacultura que não foram danificadas.

2. Se a seca, a desertificação e a degradação do solo e da água ameaçam a sua região:

Nas regiões mais áridas, podemos prever que uma diminuição da chuva e uma maior evaporação irá degradar mais o solo e os recursos de água, o que irá acelerar o processo de desertificação. Os agricultores terão de ter cuidado para preservar o solo e a água. Podem:

  • Apanhar e armazenar a água (Ver os textos 54.3, Jardine enquanto toma duche; 54.7, Recolher as águas da telha)
  • Utilizar métodos de cultivo que permitem a conservação do solo e da água, para limitar a erosão (Ver os textos 50.7, Parar a erosão do solo com barreiras vegetais vivas; 55.9, As árvores e os terraços impedem inundações nas encostas; 50.2, Cultivar a pensar no futuro: alguns métodos práticos).
  • Juntar matérias orgânicas aos solos como resíduos de colheitas, adubo e estrume (Ver textos 33.9, Onde encontrar matéria para adubo; 48.8, Fazer algo a partir de nada: transformar lixo em jardim; 61.6, Uma entrevista do Dr. Adubo sobre montes de adubo).
  • Manter o solo coberto de vegetação a tempo inteiro. Selecionar e cultivar cultivos de proteção (Ver o texto 58.2, Aumentar a sua produção de arroz sem comprar fertilizantes).
  • Praticar a agricultura agro-florestal (Ver os textos 55.7, Um Agricultor transforma um terreno abandonado em floresta; 55.1, Escolher as árvores certas para as culturas; 54.1, As árvores e a chuva; 54.2, Como as árvores armazenam água e protegem os recursos; 58.4, A cultura do milho e a plantação de árvores; 27.2, As árvores do seu jardim como fonte de adubo).
  • Cavar fossas de semeadura em regiões áridas (Vero texto 54.4, A infiltração das fossas retém água para as colheitas.
  • Plantar colheita e variedades de colheitas que tolerem a seca (Ver o texto 54.9, Colheitas úteis em tempo seco).
  • Escolher técnicas eficazes para o estancamento a longo prazo. Fazer experiências com estes últimos (Ver o texto 48.10, Utilizar pimento forte para proteger os cereais armazenados).

Melhorar as técnicas para o armazenamento a longo prazo

No Sudão, chove cada vez mais frequentemente. Para conseguir armazenar as colheitas durante mais tempo, os agricultores sudaneses modificaram a matmura, uma fossa utilizada tradicionalmente para armazenar o sorgo. Antigamente, os agricultores enchiam o matmura de sorgo até que este formasse uma cúpula, cobrindo-o de seguida com uma camada de palha. As fossas tradicionais medem um metro e meio de profundidade, mas atualmente medem apenas meio metro. Assim o grão fica seco durante mais tempo por duas razões. Primeiramente, este processo diminui o escoamento por fissuras. Segundamente, Há menos humidade no grão. Como há menos humidade, há também menos insectos, o que melhora a qualidade do grão. Os agricultores usam também mais palha para cobrir o sorgo. Estendem palha com 50 cm de profundidade mais ou menos um metro à volta das fossas cheias. Inovações nas técnicas tradicionais aumentaram o período de estocagem.

3. Se vive numa região mais fria:

Nas regiões mais frias, a estação para cultivar pode prolongar-se um mês ou mais. Aqui estão métodos que pode mencionar durante a sua emissão:

  • Teste e selecione a culturas e variedades mais apropriadas à nova estação prolongada.
  • Plante mais cedo.
  • Cultive uma segunda colheita de legumes de curta duração, se possível (Ver o texto 53.10, Cultura mista : spots rádio).
  • Plante variedades de milho e outras culturas resistentes ao calor.

4. Se, na sua região se espera que as chuvas sejam mais incertas :

O armazenamento eficaz e a longo prazo será mais importante que alguma vez foi. Pode aconselhar aos agricultores que:

  • Recolham a água da chuva e de escoamento (Ver os textos 44.3, Os camalhões transversais mantém a água preciosa da chuva no seu terreno; 54.7, Colheita das águas de telha; 61.4, Na Índia, agricultores e cientistas ‘colhem’ a água da chuva)
  • Plantem culturas e variedades de colheitas que tolerem a seca (Ver os textos As vantagens de cultivar o milho painço; 58.10, A minha melhor amiga: batata doce)
  • Utilizar método de conservação do solo e da água. (Ver os textos 43.5, Uma agricultora faz o pousio plantando árvores; 54.4, A infiltração das fossas retém a água para as colheitas).

Um exemplo de captação de água

Vários tipos de buracos de semeadura podem ser utilizados para guardar água. A fossa zai é um tipo de buraco de semeadura. As fossas zai oferecem um método tradicional para captar e reter a água que escorre em África subsaariana. São utilizadas em locais em que o solo está tão degradado que a água não o consegue penetrar.

Durante a estação mais seca, cava-se um buraco de 20 por 20 cm com uma profundidade de 10cm. A cova é enchida com resíduos de culturas ou estrume. Os manterias atraírem térmitas que vão cavar buracos na fossa. Esses buracos vão permitir que mais água penetre o solo quando chover. Milet e outras culturas podem ser plantadas nas fossas zai. No Burkina Faso, os agricultores que usam esta técnica conseguiram melhorar muito os seus rendimentos. As fossas zai protegem também as sementeiras dos ventos mais violentos. Mesmo em situações em que as chuvas são menos frequentes do que é habitual, as fossas zai têm geralmente sucesso.

5. Na maioria das regiões do mundo, os agricultores vão beneficiar de plantar várias culturas e criar várias espécies de gado. Vão também beneficiar dessa variedade para que elas se adaptem às diferenças de temperatura e novas condições

Ao longo da sua emissão, pode falar da melhor maneira de escolher as culturas novas ou alternativas, ou mesmo novas variedades de culturas:

  • Se o solo for contaminado pelo sal, cultive plantas e variedades que tolerem o sal.
  • Cultive plantas tolerantes ao calor e seca nas regiões onde o calor e a seca aumentam devido ao aquecimento global (Ver o texto 58.7, As vantagens de cultivar e utilizar o milho painço).
  • Nos sítios onde a frequência de chuva é incerta, cultive mandioca pois este pode ser armazenado no solo durante muito tempo antes de ser recoltado.
  • Em regiões vítimas de ventos violentos, cultive arroz de grão curto resistente ao vento.
  • Em regiões de temperaturas elevadas problemáticas, plante arroz e outras culturas mais cedo. Quando o arroz floresce durante a época mais quente, pode estar perdido. Outra estratégia: plantar colheitas que floresçam durante a manhã para evitar as horas mais quentes do dia.
  • Não esqueça:
    Como sempre, quando escolher os temas a apresentar na sua emissão, informe-se sobre as técnicas locais que possam ser úteis quando abordar o assunto da mudança climática. Além disso, sempre que possível, informe-se junto dos seus ouvintes, fale-lhes e discuta ideias e práticas queridas dos agricultores da sua comunidade e público.

Acknowledgements

Colaboração: Vijay Cuddeford, Toronto, Ontario
Revisão : Rod MacRae, analyste en politique alimentaire, Toronto, Ontario

Translated with funding from USAID.
USAID Washington Development objective: to support the New Alliance ICT Extension Challenge Fund through the implementation of affordable, scalable, and diverse ICT extension services.
AID-OAA-A-16-00003

Information sources