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Script 91.2

Notes to broadcasters

Notas ao emissor

Os resíduos de culturas são os restos que ficam depois da planta ou cultura ter sido utilizada – para alimentar a família, como forragem, para venda, etc. No oeste do Quénia, os agricultores habitualmente espalham o que resta das suas culturas nos limites das suas quintas. Alguns resíduos servem para fabricar adubo ou para forrar o chão de um armazém de gado, para depois ser misturado com os excrementos para produzir fertilização para as culturas.
No oeste do Quénia, os agricultores sabem há já tempo que queimar os restos é um mau hábito. No entanto, os resíduos de cultura de favas são muitas vezes queimados. A sua cinza é muitas vezes utilizada para cozer legumes como o feijão frade para o tornar mais tenro. Os agricultores habitualmente queimam estes resíduos em casa. Fora as favas, apenas alguns agricultores queimam os restos das suas culturas, a não ser que sejam demasiados para permitir uma decomposição rápida. A prática da queima tem os seus efeitos positivos, o que temos a apontar é que esses efeitos são positivos apenas a curto prazo, como vão poder perceber com este texto.

No texto presente, uma pequena agricultora e uma especialista agrícola vão expor pontos de vista diferentes para perceber se a queima de resíduos e ervas é boa ideia. A agricultura defende que a queima facilita o trabalho de quinta. Queimar facilita o controle das ervas daninhas e parasita e melhora os rendimentos na estação seguinte. Por outro lado, a queima destrói o solo a longo termo, provocando erosão acrescida do solo, mata também os organismos benéficos para o solo, e no final os rendimentos descem.

É um assunto complicado. Alguns investigadores afirmam que, em meios húmidos como o oeste do Quénia, não prejudica tanto queimar os resíduos como em meios secos. Nestes últimos, a queima pode reduzir muito rápido a fertilidade dos solos.

Para alguns agricultores, pode ser mais fácil e barato queimar os restos e ervas, mesmo que não seja a melhor estratégia a longo prazo. Os agricultores podem não ter a mão de obra ou os recursos necessários para cultivar culturas abrigo ou para enterrar os resíduos nos seus campos, ou ainda adoptar outras práticas melhores que a queima a longo prazo. Não têm apoio suficiente para cortar os arbustos e retirar as ervas daninhas à mão. Então fazem uma queima e têm ganhos imediatos.

No entanto, os emissores deviam ajudar os agricultores a compreender que as culturas abrigo, o enterro de resíduos e outras práticas da regeneração dos solos – incluindo práticas que envolvam resíduos agro-florestais, sugeridos pela especialista neste texto – são um melhor investimento a longo prazo. É importante notar que nem todas as práticas são eficazes em todos os climas. Por exemplo, os agricultores de regiões muito secas podem não ter material de cobertura suficiente ou resíduos para aplicar certas práticas. Ou esses resíduos podem ser mais úteis para alimentar gado.

Este texto está assente em entrevistas reais. Pode usá-lo como inspiração para pesquisa e escrever um texto sobre um assunto próximo na sua região. Ou pode escolher produzir este texto na sua estação utilizando vozes de atores para representar os vários papéis. Se for o caso, assegure-se que avisa o seu público no início da emissão que as vozes são de atores e não das pessoas inicialmente implicadas nas entrevistas.

Script

Personagens:
Animadora Joséphine Atieno
Investigadora agrícola : Lena Oringa

Jingle para indicar a emissão
Animadora :
Bem-vindos, caros ouvintes, à sua emissão agrícola preferida sobre a saúde dos solos. Hoje a emissão concentrar-se-á sobre a queima de resíduos de cultura e erva. Vamos ouvir o ponto de vista de uma agricultora que conhece as vantagens desta prática. Vamos também ouvir o ponto de vista de uma investigadora agrícola sobre a prática da queima dos resíduos de culturas e ervas.

Pensem numa prática agrícola que as pessoas vêm de forma negativa. Como agricultores e agricultoras podem tomar o risco de a testar sobre uma pequena parte do vosso terreno. Não é má ideia tentar. Mas falem primeiro com outros agricultores ou especialista. Encontrem as razões pelas quais dizem que a prática pode ser negativa ou positiva.
As convidadas de hoje são Joséphine Atieno, agricultora, e a investigadora agrícola Lena Oringa. É disto que vão falar hoje na vossa estação favorita, fiquem à escuta… Aqui a vossa animadora (Nome da Animadora)
Pausa musical

Animadora :
Bem-vindos de volta, caros ouvintes. Falar com agricultoras enche-me de alegria pois as mulheres representam a maioria dos agricultores na colectividade local. As agricultoras são tão importante para contribuir a alimentar a colectividade. Consegui falar com uma agricultora que queima os resíduos de cultura na sua quinta. Bem-vinda, Joséphine.
Joséphine :
Obrigada.
Animadora :
Então, Joséphine, vamos hoje aprender diretamente à fonte. Pode partilhar com os nossos ouvintes a sua experiencia com a queima dos resíduos de culturas e erva?
Joséphine :
Mais uma vez, obrigada. Sou uma pequena agricultora desde o meu casamento há mais de 20 anos. Antes disso, estava implicada em grupos de mulheres, e não tinha as melhores práticas agrícolas. Mas juntar-me com outras mulheres ajudou-me. Desde então explorei novos métodos. Fui sempre inovando graças a formações.

Nesta região, os nossos solos são inférteis por causa dos estragos provocados pelas atividades humanas. Tentei várias técnicas para melhorar os solos cansados para conseguir bons rendimentos das minhas colheitas. Plantei árvores para limitar a erosão e melhorei os pousios em vez de deixar a terra em pousio natural. A queima dos resíduos de cultura é algo que aprendi simplesmente experimentando e vendo o que acontecia. É uma velha tradição. Quando os agentes de divulgação agrícola me visitavam, desaconselhavam-me essa prática. E portanto achava que não era o melhor a fazer. Mas acredito sempre na frase: “A necessidade é mãe da invenção”. Quem precisa irá sempre conseguir encontrar solução, ainda que por tentativa e erro.

Animadora :
Joséphine, pode dizer aos nossos ouvintes como usa os resíduos antes de os queimar?
Joséphine :
Sempre usei os resíduos para fazer adubo. Espalho o adubo na minha quinta para ajudar os solos. E espalhava também alguns restos nos limites da minha quinta. Não sabia que a queima tinha tantas vantagens, além do inconveniente de matar alguns insectos e organismos importantes do solo. Junto com tudo o que já fazia na quinta, estava muito curiosa para ver até que ponto é que este método funcionaria. Portanto, experimentei. E posso dizer que tive resultados muito positivos.
Animadora :
Quais são as vantagens que descobriu na sua quinta?
Joséphine :
A queima reduz as invasões de parasitas depois da plantação. Acho que é porque as daninhas que atraem os parasitas são também destruídas e não regeneram. As cinzas dos resíduos são ricas em potássio e cálcio; isto acrescenta valor ao solo e ajuda à cultura. Já que não uso fertilizantes, é uma boa maneira de dar ao solo o que lhe falta.

Penso que com esta prática, os que utilizam fertilizantes podem diminuir a sua quantidade. Eu arrisquei. Mas por tentativa e erro, consegui tirar benefícios do que dizem ser uma má prática agrícola. Acho que os agricultores devem adoptar este método para ver resultados positivos. Tentar é a melhor maneira de testar e constatar a verdade.

Animadora :
Caros ouvintes, ouviram aqui o ponto de vista de uma agricultora sobre os efeitos da queima dos resíduos de cultura e ervas. Daqui a poucos instantes, vamos ouvir a opinião de uma investigadora agrícola.
Pausa musical
Animadora :
Bem-vindos de volta, caros ouvintes. Vamos agora ouvir o ponto de vista de uma investigadora agrícola. Os agricultores tinham pontos de vista muito negativos no que toca à queima de resíduos e ervas. De acordo com Joséphine, esta ideia vem-lhes dos agentes de divulgação agrícola. Caros ouvintes, vamos ouvir então a Sra Lena Oringa. Bem-vinda, Lena.
Investigadora :
Obrigada. Depois de ouvir a história da Joséphine, sinto-me muito inspirada. Penso que hoje, essa prática da queima de resíduos de cultura e ervas não devia ser incentivada.
Os nutrientes que a queima liberta são muitas vezes levados e lavados pela chuva ou pelo vento. A produtividade do solo diminui depois da queima porque os nutrientes estão gastos. Por isso, antigos agricultores tiveram de deixar as suas terras durante cinco a 25 anos e às vezes até 40 anos para voltar a conseguir trabalhar a terra de novos. Isso hoje é impossível por causa do crescimento demográfico, o que não dá à terra o tempo que precisa para regenerar.

Portanto, durante algum tempo, essa prática foi desaconselhada. Eu sei há vantagens. Quando queimamos os resíduos, matamos os parasitas. Alguns parasitas contribuem para doentes, se bem há uma dupla vantagem, e as ervas daninhas também são morta mortas.

Animadora :
Se a queima não é uma boa ideia, que devem fazer os agricultores para restabelecer a fertilidade dos solos no oeste do Quénia?
Investigadora :
Eu incentivaria os agricultores a espalhar os resíduos de cultura nas suas quintas. A Joséphine usa também os pousios melhorados, que também aconselho. Como ela própria diz os resíduos de cultura podem ser convertidos em fertilizante, ou seja espalhados no chão dos estábulos para os misturar ao estrume. Isto irá produzir adubo animal que é bom para as culturas e mais duradouro que a queima. Uma vez que os resíduos estejam decompostos nas quintas, libertam os nutrientes no solo tornando-o mais fértil, que depois vão servir para as culturas também.

Os agricultores podem também plantar 100 a 150 árvores de Faidherbia albina por hectare. Isto vai trazer nutrientes equivalentes a 300kilos de azotos por hectare, e ainda fósforo e magnésio. Plantar Faidherbia com essa densidade pode portanto duplicar ou até triplicar os rendimentos.

Animadora :
Isso ajuda também a combater ervas daninhas?
Investigadora :
Espalhar resíduos nos campos trava as ervas daninhas com uma combinação de sombra e asfixia. Os resíduos também impedem o sol de secar o solo. Isto mantém a água no solo, e disponível para as culturas. Os agricultores podem furar a camada de resíduos para plantar as suas sementes, ou simplesmente espalhá-los à volta das suas plantas depois de estas germinarem. As culturas retiram nutrientes das folhas em decomposição. As raízes das árvores absorvem os nutrientes excedentes que voltam para o solo quando os seus ramos forem cortados.
Animadora :
Tem mais algum comentário sobre a queima de resíduos de cultura e ervas?
Investigadora:
Mesmo que a queima de resíduos de cultura e ervas seja uma prática orgânica, não é segura. Os agricultores devem ter muito cuidado. A queima estraga o solo e acaba por lhe ser nociva. Quando o solo fica exposto depois da queima, pode haver uma erosão forte. Por outro lado, a queima de resíduos e de erva liberta muito dióxido de carbono no ar, o que contribui para o aquecimento global.
Animadora :
A Joséphine diz que a queima reduz os parasitas. Que tem a dizer sobre isso?
Investigadora:
É verdade que a queima mata os parasitas e outros organismos patógenos no solo. Mas mata também organismos benéficos e importantes. Isto reduz a atividade biológica no campo onde é aplicada. A forragem do solo melhora-o atraindo também minhocas e outros organismos vivos. Estes organismos ‘trabalham’ a terra e os seus excrementos são dos melhores fertilizantes naturais. É portanto necessário incentivar o espalhar de forragem e resíduos de cultura em vez de os queimar. Isto constrói o solo e melhora a sua estrutura e fertilidade.
Pausa musical
Animadora :
Bem-vindos de voltas, caros ouvintes, e obrigada às nossas convidadas do dia, Joséphine e Lena. Caros ouvintes, ouviram os seus comentários e opiniões diretamente da fonte. É uma questão de escolha. Em todas as práticas agrícolas que escolhemos como agricultores e agricultoras, devemos ter cuidado e perceber o melhor possível o nível de importância da prática que escolhermos. No vosso lugar, eu adoptaria sistemas de policultura. Em vez de cultivar apenas uma cultura, os agricultores podem alternar cereais e leguminosas e até mesmo culturas agro-florestais. Pois se trata de um sistema misto, traz bastantes vantagens, tal como uma redução das ervas daninhas e parasitas. Também se acrescenta minerais ao solo. Por outro lado, práticas como a forragem ajudam o solo a conservar a água e tornar os nutrientes mais disponíveis para as plantas. Isto impede o congestionamento do solo e melhora o seu pH.

Ouvimos também as cinzas podem ter efeitos positivos a curto prazo mas negativo a longo. Mesmo que a cinza seja um produto natural com uma contribuição positiva, temos de ter cuidado quando a utilizamos. É como o veneno das serpentes. É natural, mas será boa ideia para matar os insectos na nossa quinta?

Caros ouvintes, estamos convencidos que, independentemente do vosso local de residência, pode ter percebi que nem sempre é fácil dizer se uma prática agrícola é positiva ou negativa. As opiniões divergem. E se certas práticas podem ter vantagens a curto prazo, podem também ter efeitos secundários negativos a longo prazo. Nesse caso, peço-vos que sigam os conselhos que ouvimos da nossa investigadora, se querem obter bons resultados como agricultores.

Obrigada por nos ouviram. Aqui a vossa Animadora (nome). Adeus, e até à nossa próxima emissão sobre a saúde dos solos.

Acknowledgements

Agradecimentos
Redação : Redatora Rachel Awuor, Centro de recurso comunitários de Ugunja, Quénia, parceiro da Radios Rurales Internationales.
Revisão : Peter Gaichie Kimani, especialista-conselheiro no Centro Mundial de Agrossilvicultura (CIRAF), Nairobi, Quénia.
Tradução : Jean-Luc Malherbe, Sociedade Ardenn, Ottawa, Canada.

Agradecimentos especiais à The McLean Foundation pelo seu apoio no texto sobre a saúde dos solos.

Programa realizado com o apoio financeiro do governo do Canadá e da Agência Canadiana de Desenvolvimento Internacional (ACDI)

Translated with funding from USAID.
USAID Washington Development objective: to support the New Alliance ICT Extension Challenge Fund through the implementation of affordable, scalable, and diverse ICT extension services.
AID-OAA-A-16-00003

Information Sources

Fontes
Entrevista a Luke Musewe, agente de divulgação no Ugunja, 20 abril 2010 Entrevista a Joséphine Atieno, agricultora, 26 março 2010